Reportagem – Lucas Arruda
Há 30 anos, em 15 de maio de 1996, o mundo conheceu um dos álbuns mais importantes da história da música brasileira: “Afrociberdelia”, a segunda produção em estúdio da banda Chico Science & Nação Zumbi, que ousava em misturar ritmos tradicionais do Nordeste brasileiro à hip hop e eletrônica.
Com produção de Eduardo BiD e lançamento pelo selo Chaos, da Sony Music, “Afrociberdelia” foi gravado entre 1995 e 1996, no Rio de Janeiro, reunindo 20 faixas e três remixes. Depois do sucesso de “Da Lama ao Caos”, primeiro álbum da banda, e que foi responsável por apresentar ao Brasil uma versão “lado B” do Recife, o disco trazia novos elementos para o Manguebeat, como conta o vocalista da Nação Zumbi, Jorge Du Peixe.
“Nós sempre fomos admiradores de ficção científica, da diáspora africana. Sempre fomos calçados em batidas. Eu e Chico dançamos break no final dos anos 1980. Éramos B-boys e frequentadores de sebo, garimpando vinil na época. E tudo isso se imprime no disco”, comenta.
No encarte do álbum (material em texto encontrado em CDs, discos de vinil e fitas cassete, como complemento à produção), o escritor e compositor Bráulio Tavares dizia que Afrociberdelia era a união das palavras África, Cibernética e Psicodelismo. E foi no som – do tambor à guitarra – que a Nação Zumbi fez a antena fincada na lama do mangue se conectar com o futuro, destacando ainda mais os problemas de uma cidade que fervia.
Estúdio

Escolhido por Chico Science para produzir o disco, o produtor Eduardo Bidlovski, o BiD, conta que a afinidade musical e pessoal entre ele e a banda foi determinante, ainda mais por ter sido sua primeira experiência na função. O cuidado com a sonoridade de cada instrumento em estúdio transformou “Afrociberdelia” em uma obra incomparável.
“Eu fui para Recife trabalhar com eles, e ali já se definiu muita coisa. E foi um trabalho onde todos tiveram liberdade de criação, mas ao mesmo tempo, tinha que ter essa aprovação do todo. Você lembra das linhas debaixo do Dengue, a força dos tambores, a percussão do Toca Ogan, as guitarras do Lúcio (Maia), que são pesadas, ‘groovadas’ e psicodélicas, com influências afro. Então, isso é a sonoridade da banda”, pontuou.
Durante a gravação, nomes como Gilberto Gil, Marcelo D2 e Fred 04 contribuíram com algumas das faixas, como Macô e Samba do Lado. Isso mostra a relevância e a disseminação do trabalho da banda. O jornalista José Teles, que cobria a cena cultural da época, lembra que “Afrociberdelia” se somou a “Da Lama ao Caos” para fazer os olhos de todos os lugares se voltarem a Pernambuco.
“O rock dos anos 80 estava meio morgado. E aí, de repente, surgiu uma coisa nova no Recife, que virou o centro das atenções da música no Brasil e no mundo a partir de 1994. Eu lembro de o New York Times mandar um repórter para cobrir o ‘Abril Pro Rock’, várias vezes. E isso prova o quanto que Chico era uma esponja. Ele pegava tudo que estava ao redor e processava”, disse.

Em uma rotina que fazia a noite virar dia, o estúdio na capital fluminense foi o “parque de diversões” da banda por alguns meses. Na jornada, a presença dos convidados marcaram. Jorge Du Peixe lembra das presenças de Gilberto Gil e Marcelo D2 nas gravações.
“Gil teve no estudo daquela maneira dele, muito tranquilo. Sentou, cruzou as pernas, tocou violão, contou histórias. Sempre ali dando atenção. Ele que sempre chegou junto das coisas novas, e justamente depois da Tropicália veio esse grito de Recife. E D2, quando a gente morou no Rio, nos encontrávamos sempre. Algumas vezes em São Paulo. A gente já se conhecia”, lembra.

Maracatu Atômico
Havia um pouco de cada Brasil nas músicas de “Afrociberdelia”, como Etnia, O Cidadão do Mundo e Corpo de Lama. E foi a partir dessa percepção que BiD apresentou Maracatu Atômico, composta por Jorge Mautner e imortalizada na voz de Gilberto Gil, para a Nação. A faixa mais lembrada, por muito pouco, quase não esteve presente no álbum.
“Pouca gente tinha esse disco (Cidade do Salvador, Gilberto Gil – 1973). E aí eu mostrei para Chico (Science) no meu estúdio, em São Paulo. Falei: ‘olha, ouve esse som, que eu acho que tem tudo a ver. Estávamos eu, Chicoe Jorge (Du Peixe). E aí eles curtiram muito. Eu levei a ‘parada’ para a Sony. No estúdio, tentamos trabalhar, mas não ficou legal. E aí decidimos dar sequência, e qualquer coisa, voltávamos depois. Quando chegou no fim do disco, a gente nem falou mais sobre. E fomos para São Paulo para mixagem. Lá, o diretor artístico da Sony, Jorge Davidson, perguntou pela música e disse que tinha que gravar, que a música tinha tudo a ver”, declarou.
Fato é que, com a produção já atrasada, Maracatu Atômico foi gravada com algumas mudanças na composição da banda.
“Eu já estava em Recife quando Chico falou: “ó, a gente vai gravar uma música a mais e tal’. No final, quem cobrou por Maracatu Atômico foi Jorge (Davidson). No dia seguinte, eles foram para o estúdio e gravaram aquela versão, que até Gilberto Gilpassou a cantar igual a versão que Chico Science & Nação Zumbi fez. É até engraçado isso”, comenta.
Ao fim de “Afrociberdelia”, três remixes de Maracatu Atômico foram incorporados ao álbum. Fato que causou surpresa, mas também incômodo. “Poderia de alguma maneira ou outra afetar o contexto”, indica Jorge Du Peixe. “Quando o CD estava pronto e fabricado é que a gente viu. ‘Opa, espera aí, o que é isso?’. Foi aí que a casa caiu”, lembra BiD.
Legado
Desde o lançamento, há 30 anos, “Afrociberdelia” vendeu mais de 100 mil cópias, chegando a receber o certificado de Disco de Ouro. Nos 60 anos do nascimento de Chico Science, o álbum segue único e irreverente, sem ter perdido a conexão com o presente.
“O disco é atemporal, ele não tem fórmulas, ele não foi pensado para ser sucesso. Ele é simplesmente uma verdade que a banda vivia, uma verdade que o Chico passava estava vivendo, e a química dos integrantes junto comigo. Essa química vai durar para sempre, ela está ali gravada”, reforça BiD.

Jorge Du Peixe, que seguiu como cantor da Nação Zumbi após o falecimento de Chico Science, lembra que ele defendia que a diversão fosse levada a sério – e isso continua.
“A gente se divertia, mas tinha uma seriedade. Eu acho que o legado maior é gostar do que está fazendo. É saber direcionar suas coisas, as referências. A gente construiu, juntos, memórias. E cada subida no palco é em tom de reverência, sempre lembrando Chico“, disse.
Em 2026, a Nação Zumbi celebra os 30 anos de “Afrociberdelia” com música, como no início de maio, onde a banda subiu ao palco do icônico Circo Voador, no Rio de Janeiro, para tocar o álbum na íntegra. Para além das memórias de um disco que entrou para a história da música brasileira, o maracatu atômico da Nação Zumbi segue ecoando.

Ficha Técnica de Afrociberdelia
Chico Science & Nação Zumbi: Chico Science (voz), Alexandre Dengue (baixo), Gilmar Bolla 8 (alfaia), Gira (alfaia), Jorge du Peixe (alfaia), Lúcio Maia (guitarra), Pupilo (bateria), Toca Ogam (percussão e voz).
Faixas

Mateus Enter (Chico Science & Nação Zumbi)
O Cidadão do Mundo (Chico Science & Nação Zumbi, Eduardo Bidlovski)
Etnia (Chico Science – Lúcio Maia)
Quilombo Groove (instrumental) (Chico Science & Nação Zumbi)
Macô (Chico Science – Eduardo Bidlovski – Jorge du Peixe)
Um Passeio no Mundo Livre (Dengue – Gira – Jorge du Peixe – Lúcio Maia – Pupilo)
Samba do Lado (Chico Science & Nação Zumbi)
Maracatu Atômico (Jorge Mautner – Nélson Jacobina)
O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu (H. D. Mabuse – Jorge du Peixe)
Corpo de Lama (Chico Science – Jorge dü Peixe – Dengue – Gira – Lúcio Maia)
Sobremesa (Chico Science – Jorge du Peixe – Renato L. – Chico Science & Nação Zumbi )
Manguetown (Dengue – Lúcio Maia)
Um Satélite na Cabeça (Bitnik Generation) (Chico Science & Nação Zumbi)
Baião Ambiental (instrumental) (Dengue – Gira – Lúcio Maia)
Sangue de Bairro (Chico Science – Ortinho – Chico Science & Nação Zumbi)
Enquanto o Mundo Explode (Chico Science & Nação Zumbi)
Interlude Zumbi (Gilmar Bolla 8 – Gira – Toca Ogam)
Criança de Domingo (Cadão Volpato – Ricardo Salvagni)
Amor de Muito (Chico Science & Nação Zumbi)
Samidarish (instrumental) (Dengue – Lúcio Maia)
Reportagem
Produção, sonorização e reportagem – Lucas Arruda
Edição de texto – Daniele Monteiro





