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Tecnologia

Hydrelio, a tecnologia híbrida que pode revolucionar o setor elétrico


Por: PATRÍCIA RAPOSO

A inovação que ela traz passa também pela geração de um produto que vai abrir nova fronteira no mercado mundial: o hidrogênio verde

A inovação que ela traz passa também pela geração de um produto que vai abrir nova fronteira no mercado mundial: o hidrogênio verde
22/11/2020
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A geração hidrelétrica brasileira vive um péssimo momento, indo na direção oposta a outras fontes renováveis. Com os níveis cada vez mais baixos de seus reservatórios, enfrenta uma ociosidade da ordem 40% em suas linhas de transmissão no país, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A geração solar, no entanto, teve crescimento recorde de 212%, em 2019, alcançando de 3 GW em outubro passado, mas isso é apenas 1,7% da matriz energética brasileira. A boa notícia para os dois segmentos é que um modelo de geração híbrida pode fazer com que as duas fontes potencializem seu crescimento. E ele começa a atrair atenção do mercado energético nacional.

Trata-se de uma tecnologia flutuante, que permite a instalação de  painéis solares em reservatórios d’água. Implantados nas barragens das hidrelétricas, permitiria a ampliação da sua capacidade de produção. Mas essa tecnologia tem muito mais a oferecer, como você verá até o fim deste artigo.

A tecnologia chama-se Hydrelio (Solução Híbrida Hídrica Solar Flutuante) e foi desenvolvida pela líder mundial francesa Ciel et Terre International (CTI). Chegou ao Brasil há cinco anos, trazida pela Sunlution - Soluções em Geração de Energia, que a tropicalizou.

Primeira etapa da planta da Hidrlétrica de Sobradinho/Foto: divulgação Sunlution 

Já em uso no país, a Hydrelio tem não só ampliado a geração de energia em hidrelétricas, mas ajudado a mitigar o problema da intermitência na geração solar, fator que a impede ser uma geração de base, mantendo-a na categoria alternativa. A capacidade instalada ainda é baixa, de 1,4 MWp, com geração 2.380 MW/H ano, mas o potencial é muito amplo.

“A capacidade de geração do Brasil hoje é de 170 GW, sendo que as hidrelétricas respondem por 109 GW desse total. Se a tecnologia solar flutuante for empregada nestes ambientes, podemos aumentar o fator de capacidade das hidrelétricas em até 17,3% e, assim, seria possível acrescentar 19 GWp ao sistema nacional, num investimento da ordem de R$ 76 bilhões, com geração de 475 mil empregos diretos em 10 anos”, explica o empresários Luiz Piauhylino Filho, fundador da Sunlution.

Com 12 hidrelétricas, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) conta com capacidade instalada de 10 GW. “Se usarmos só 10% dos reservatórios dessas unidades conseguiríamos acrescentar mais de 52 GW sobre elas, aproveitando as suas linhas de transmissão, que hoje estão ociosas. Ou seja, teríamos mais 5 Chesf em produção”, calcula Piauhylino.

Vantagens

A Hydrelio tem outras vantagens: reduz em até 70% a evaporação nos espelhos d’água e inibe a proliferação de algas e de micro-organismos que comprometem à qualidade da água, porque interfere na incidência de luz e, consequentemente, na fotossíntese.

Ao chegar ao Brasil, a tecnologia híbrida foi implantada primeiramente na Fazenda Figueiredo, em Cristalina, Goiás, para gerar 300 kWp, um projeto privado.

A tropicalização de 100% dos componentes se deu quando a Sunlution participou de um certame de Pesquisa e Desenvolvimento promovido pela Chesf. A proposta saiu vencedora para implantar a geração no espelho d’água da barragem da Hidrelétrica de Sobradinho, no Sertão baiano.

“No decorrer do contrato, nós propusemos fabricar os flutuadores em vez de importar da França”, explica o Piauhylino. Assim, já com componentes fabricados no Brasil, em 2019, foi concluída a primeira etapa da planta de geração nessa represa, com capacidade para 1 MW. A segunda, com capacidade para 1,5 MW, está em curso.

Luiz Piauhylino Filho/Foto: cortesia

A Sunlution também venceu a licitação da paulista Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE) para instalar na represa de Billings uma unidade geradora piloto de 100 kWp.

Atualmente, está concorrendo em dois editais no estado de Pernambuco - um voltado à geração de 15 MW para a companhia de água e esgoto, a Compesa, e o outro, de 145 MW para o governo do estado. Esses entes buscam um projeto que traga não só a redução de custos com o consumo de energia, mas que gere empregos e tenha impacto ambiental positivo.

No projeto da Compesa, o investimento seria de R$ 67 milhões, com  payback em sete anos. No governo estadual, o aporte alcança R$ 650 milhões, com retorno em nove anos.

“Para cada MW instalado podemos gerar 25 empregos diretos no local. Na Compesa, seriam 375 novos empregos. Na licitação do governo de Pernambuco, outros 3.625 empregos.”, ressalta o empresário.

“O problema é que o Brasil tem que aceitar a hibridização das fontes”, diz Piauhylino, referindo-se a uma discussão que tramita na Aneel há pelo menos dois anos. Os opositores se agarram aos argumentos da intermitência da geração solar. “A junção da geração solar flutuante com a hidrelétrica resolve sim, a questão intermitência da fonte solar. Porém, temos que modernizar as nossas leis e regulamentações, nossas hidrelétricas e o despacho do sistema para esta nova realidade”, pontua.

O apelo à adoção desta tecnologia, ressalta Piauhylino, não se resume apenas à geração flutuante solar, mas a outro produto que pode ser extraído dela: o hidrogênio verde.

Hidrogênio verde

O hidrogênio é considerado verde quando capturado num processo que usa energia renovável. Quando a fonte usada é suja, gera-se o que o mercado chama de hidrogênio cinza.

Para se produzir o hidrogênio verde é preciso de energia renovável barata e água - 20 litros da água potável para produzir 1 kg de hidrogênio. As plantas solares flutuantes são, portanto, estruturas propícias a esse negócio. Para obter o hidrogênio, a Sunlution utiliza o processo de eletrólise tendo como fonte a própria energia solar que gera em suas plantas flutuantes.  

Hidrogênio verde pode ser prozuido na própria planta/Foto: divulgação Sunlution 

Com o mundo iniciando uma migração para o hidrogênio verde, abre-se uma grande oportunidade comercial. A Europa resolveu descarbonizar sua economia atacando os segmentos que mais poluem, como o setor de transportes. Até 2050, os europeus vão precisar de 3.350 GW em novos projetos de energia renováveis para atingir sua meta de descarbonização. “Mas não tem lugar para produzir essa energia lá. Eles terão que importar hidrogênio verde”, ressalta Piauhylino.

Um bom mercado também para o etanol, que em sua composição química tem 6 moléculas de hidrogênio. O etanol está sendo estudado para alimentar células de combustível. A vantagem é que pode ser exportado no estado líquido e o processo de extração do hidrogênio ser feito no destino final.

“Se você me perguntar com o vejo o futuro, digo que há um enorme potencial. Nos próximos 5, 10 anos, os países vão trocar suas frotas a combustão e há outros segmentos de aplicação, como as indústrias de fertilizante, de aço, de cimento, de vidro”, diz. E o crescente movimento em busca da certificação verde pelas empresas, torna o campo para o hidrogênio verde de fato muito vasto.

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