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O som e o ruído


Por: REDAÇÃO Portal

Como o excesso de informações pode prejudicar o entendimento do contexto e a tomada de decisões

Como o excesso de informações pode prejudicar o entendimento do contexto e a tomada de decisões

Foto: Marcos Herszkowic/Foto: arquivo pessoal

08/04/2020
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Marcos Herszkowicz*

A atual crise traz consigo, além de todos os efeitos sanitários, sociais e econômicos, uma enxurrada de informação. Todo dia, minuto a minuto, queira você ou não, através de todos os canais, das fontes tradicionais às redes sociais, passando por aplicativos de mensagens, há um bombardeio de dados, produzidos por governos, academia, imprensa, cientistas, consultorias, organizações e pessoas comuns, replicado e compartilhado na velocidade de um clique, graças às inúmeras ferramentas de comunicação hoje disponíveis – mais uma característica que diferencia a atual crise de todas as anteriores: nunca estivemos tão conectados. Mas isso tudo não é necessariamente bom.  O excesso de informação pode levar à perda de foco e provocar a letargia em agir – ou, pior, à tomada de decisões erradas.

Mesmo expurgado o que é fake news, opinião enviesada, ideologia de todos os matizes, obviedades em série, conclusões desconexas, sugestões inexequíveis, ou simplesmente conteúdo ruim, ainda sobra um volume enorme de material realmente interessante a ser absorvido. E em todas as embalagens: posts, artigos, matérias, vídeos e uma sequência infindável de webinars diários, ocupando a agenda de quarentena.

Filtrar e processar tudo isso tem sido um exercício hercúleo para aqueles que se dispõe a isso. Somado ao natural efeito paralisante inicial de uma crise de proporções como a que vivemos, essa torrente de dados tem, para um grande grupo de pessoas, gerado mais letargia, dúvidas e questionamentos do que um direcionamento claro de como agir neste momento. É difícil convergir para aquilo que efetivamente é relevante para o seu negócio neste instante, por exemplo, vez que há informação e opiniões sobre tudo. E, escolhido algum ponto específico, “peneirar” a informação menos parcial e mais embasada é o problema seguinte. Um desafio de foco e conteúdo, portanto.

Há, ainda, a ansiedade crescente que aflora naqueles que ousam um mergulho mais profundo nos dados da crise que, ao menos até agora, gera muito mais questionamentos do que respostas. Nem todos conseguem lidar de forma adequada com a baixíssima previsibilidade do cenário. A pandemia do COVID-19 e seus graves efeitos em um mundo como o atual, altamente conectado, globalizado, interdependente e com níveis muito elevados de mobilidade da população entre as regiões, não encontra precedentes na história recente. Vale lembrar que mesmo acontecimentos mais traumáticos, como as Guerras Mundiais, e mesmo a Gripe Espanhola, aconteceram em contextos mais simples e estáveis, ao menos nos parâmetros citados acima. Vivemos um enorme desafio que está sendo construído neste exato momento, online, e que, portanto, nos priva a todos de algum tipo de manual de instruções ou benchmark prévio. Somos todos marinheiros de primeira viagem – e isso pode ser angustiante para a grande maioria. Um desafio psicológico e de equilíbrio, então.

Por fim, mas não menos importante, a forma como temos digerido essa quantidade anormal de informação também merece atenção. Olhos e ouvidos têm feito plantão lendo matérias, comentários e acompanhando uma sequência frenética de lives e webinars sobre o assunto. Absorvendo, absorvendo e absorvendo um pouco mais. A boca, contudo, tem sido menos utilizada. Espaços onde se possa conversar, trocar experiências e refletir em conjunto sobre o momento são muito mais raros. Menos do que expor conclusões e recomendações, o compartilhamento das incertezas e questionamentos de cada um pode ter um efeito extremamente benéfico para quem expõe e para quem escuta. Falar e ser ouvido é um poderoso medicamento para os males contemporâneos. Logo, um desafio de dar vazão ao que se absorveu e demonstrar certa vulnerabilidade por não ter todas as respostas.

Toda essa situação me remete à obra de um dos meus autores preferidos, o americano Malcolm Glaldwell. Em “Blink – a decisão num piscar de olhos”, publicado no Brasil pela Editora Rocco, Gladwell, dentre outras histórias, joga luz sobre o trabalho de um cardiologista chamado Lee Goldman, que nos anos 70 desenvolveu um algoritmo para ajudar médicos a identificar se uma pessoa estava ou não sofrendo um ataque do coração. Goldman reduziu a análise da situação a 3 ou 4 parâmetros relevantes, combinando-os, ao invés de um número muito maior de dados que mesmo os médicos experientes costumavam analisar. Em 96, Brendan Reilly foi designado para presidir o Departamento de Medicina do Cook County Hospital, o principal hospital público de Chicago, e decidiu aplicar o algoritmo de Goldman. Os resultados demonstraram que o novo método foi 70% mais preciso em reconhecer os pacientes que na verdade não estavam tendo um ataque do coração no atendimento do hospital. No caso dos pacientes mais graves, o algoritmo chegou a impressionantes 95% de acerto de quem efetivamente precisava de atendimento urgente. Nas palavras de Gladwell, há uma importante lição nisso: “(...) na tomada de decisões acertadas, a frugalidade é importante. (...) A pesquisa de Lee Goldman demonstra que na escolha desses tipos de padrões, menos é mais. Sobrecarregar os tomadores de decisões com informações dificulta a identificação desse padrão, ao invés de facilitá-la. Para tomar decisões de sucesso, precisamos editar.” Eis aí, portanto, mais um enorme desafio da pandemia: editar o que nos chega a todo instante, por todos os lados, e tomar as decisões certas. Boa sorte a todos nós!

*O autor é consultor em governança corporativa e familiar, fundador da MHRZ Consultoria em Governança, e co-fundador da Escola F - Educação para Famílias Empresárias e da AUDENS BOARD – Governança e Conselho. Faz parte da rede de mentores da Endeavor Brasil e do Porto Social, organizações dedicadas ao apoio e fortalecimento do empreendedorismo e de negócios de impacto social.

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