Por Lucas Arruda
Na Mata Norte de Pernambuco, a 60 km do Recife, uma cidade de pouco mais de 13 mil habitantes se destaca por ser a Capital do Artesanato em Cerâmica. Mas o título de “Terra do Barro” também cabe perfeitamente a Tracunhaém, onde o sustento de centenas de famílias vem de uma arte ancestral.
Ao mesmo tempo em que Mestre Vitalino eternizava o artesanato figurativo em Caruaru, no início do século passado, a família Vieira também modelava o barro em Tracunhaém. O que mostra que, sob os olhos da Serra do Trapuá, essa é uma cultura que atravessa o tempo. Atualmente, representada por aproximadamente 40 ateliês, 10 olarias e um número incontável de artistas.
A reportagem da CBN Recife pegou a estrada para conhecer, de perto, a história de alguns desses empreendedores da arte. Um trabalho que vai da produção até a venda. Da modelagem dentro de casa até as peças expostas nos ateliês. Do encantamento direto ao cliente até o e-commerce. Todas essas possibilidades resultam no que há de mais potente na economia de Pernambuco: a criatividade que emana da força de um povo.
Arte de berço

Não tem erro: quem chega a Tracunhaém pela BR-408, saindo do Recife, basta virar à direita. Depois que passa o letreiro com o nome da cidade, a Rua José Alfredo Vaz de Oliveira – a principal, como se diz no interior – convida a parar e visitar cada um dos tantos ateliês que chamam atenção pela beleza da arte.
É no de número 130, na Casa de Taipa, que trabalha Edvaldo José de Andrade Júnior ou mesmo Val Andrade, como ele é conhecido.
“a arte é isso: é o que me move”
Val conta que já nasceu no meio da arte, vendo o seu pai, o mestre Sussula, trabalhar. Aos 9 anos, começou modelando figuras da cultura popular, até que entendeu que seu caminho era na linhagem ancestral. Quando a reportagem chegou ao seu local de trabalho, ele estava com a mão na massa, tirando o excesso de barro na parte interna de uma peça – a “ocagem”. Quando pronta, ela pode chegar a custar R$ 190. Mas suas produções podem chegar até R$ 8 mil.
“É um ofício que eu não escolhi. É um dom, uma coisa hereditária. Já nasci nesse meio. Não troco por nada. Quando eu pego o barro para modelar, as coisas vão fluindo, obedecendo a estrutura. Eu tenho esse respeito com a arte. O artista que modela a argila tem domínio da água, do ar, do fogo, da própria matéria-prima, que é o barro mesmo. E a arte é isso: é o que me move”, conta.
O artista precisa dominar os elementos e as fases da produção, que Val fez questão de explicar ao repórter. Antes de tudo, a argila utilizada por boa parte dos artesãos de Tracunhaém sai de Cupissura, no Litoral Sul da Paraíba. E o motivo é simples: a qualidade do barro – um fator que influencia diretamente no nível de detalhamento da peça, e claro, no valor final, já que a produção costuma acontecer mais por encomenda do que por demanda espontânea.
No ateliê, a primeira etapa é a modelagem, que flui de acordo com as intenções – e inspirações – de cada artista. É a fase onde a energia de quem veio guia cada detalhe feito com a suavidade das mãos. Depois, vem o acabamento, seguido da secagem. Por último, acontece o aquecimento da peça no forno, quando a produção, enfim, fica pronta.
Cada uma dessas etapas carrega segredos e cuidados que uma cidade inteira aprendeu a respeitar e valorizar. Foi por meio deles que Tracunhaém se transformou em uma terra de mestres e mestras e da arte com barro.
Mestre Ivo e a Fenearte

Um dos mais conhecidos da cidade é o Mestre Ivo, na labuta do artesanato há 51 dos 61 anos de vida. Ele também recebeu a reportagem da CBN Recife em seu ateliê, perto da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Assim como Val e outros artistas de Tracunhaém, Ivo foi reconhecido recentemente com o Título de Notório Saber em Cultura Popular pela Universidade de Pernambuco (UPE). O peso da homenagem reflete a grandeza do trabalho.
Atualmente, o mestre produz inspirado em potências da cultura brasileira, fazendo uma releitura do Abaporu, quadro de Tarsila do Amaral, e da história de “O Cortiço”, escrito por Aluísio de Azevedo. Enquanto modelava uma peça encomendada, ele contou que já estava nos preparativos finais para a maior feira de artesanato da América Latina: a Fenearte, que neste ano acontece entre 8 e 19 de julho, no Centro de Convenções, em Olinda.
“Eu tenho falado que a Fenearte é uma vitrine de oportunidade. Se soubermos aproveitar o momento, a gente consegue números positivos tanto no período da feira como depois. Ela abre caminhos e oportunidades de forma surpreendente. Uma cliente de Portugal ficou encantada na Fenearte do ano passado e logo após fez um pedido. Eu mandei as peças para lá. Aí alguém vê o trabalho porque outra pessoa postou, entra em contato e vai abrindo caminho, vendo que a arte tem um potencial diferente na vida de quem faz”, relata.
Na Fenearte, as obras do Mestre Ivo ficam em um local de destaque: a Alameda dos Mestres, evidenciando a riqueza do seu trabalho. Ele diz que o famoso “coração da reconstrução”, por exemplo, sai a R$ 200. Mas a peça que estava sendo produzida em suas mãos no momento da entrevista, com 30 cm, pode custar até R$ 500. E como a feira funciona como uma vitrine, são valores que se multiplicam ao longo do ano.
Somente em 2025, a Fenearte reuniu mais de 5 mil artesãos e expositores, diante de um público de 340 mil visitantes. Gente de todos os lugares do planeta. A movimentação econômica, in loco, foi de R$ 163 milhões.
De olho no futuro
Desse valor, Tracunhaém representou cerca de R$ 2 milhões, de acordo com o secretário de Cultura Rodrigo de Paula. A cidade se destaca com mais de 100 artesãos participando da Feira, totalizando, somente na última edição, 34 espaços de venda. Eles estão presentes em estandes como os da própria prefeitura, dos mestres, individualmente, e até mesmo do Sebrae. A instituição tem promovido iniciativas em Tracunhaém para impulsionar a economia criativa.
Em 2026, a Feira de Artesanato e a Trilha de Desenvolvimento do Artesão são alguns dos exemplos: desde a capacitação, instruindo sobre questões como atendimento ao cliente e técnicas de vendas, até a prática. O secretário Rodrigo de Paula conta que essa formação é fundamental – especialmente para as novas gerações.
“Tracunhaém é a capital do artesanato em cerâmica, mas nunca houve cursos voltados para essa área. Inclusive, a gente tem o centro de artesanato, que a gente conhece aqui por colégio de arte, mas que na verdade nunca ensinou. Começamos a fazer oficinas aqui. No ano passado, fizemos uma capacitação de quase oito meses e encerramos com uma exposição na Feira de Artesanato. Nós já temos artesãos formados nesses cursos que participam da Fenearte. Eu digo direto, se a gente conseguir uma pessoa em cada curso desse, já ganhamos tudo”, pontuou.

O aluno aprende do básico: desde como catar o barro até a comercialização, passando por todos os processos. Para manter seu principal potencial econômico vivo, Tracunhaém tem olhado para o futuro. E com o mundo em constante transformação, ela passa diretamente por questões como a formalização das condições de trabalho e pela exposição das produções na internet. Caminhos que tem expandido os horizontes de quem nunca imaginou que poderia chegar tão longe.
De Tracunhaém para o mundo
Quem passa pela movimentada BR-408, em Tracunhaém, dificilmente não repara nos ateliês que ficam às margens da rodovia. Um deles – um dos mais charmosos, sem dúvida – é o “João de Barro”. Ou melhor, o @jb_artesanato_. Isso porque, no Instagram, o estabelecimento supera os limites do asfalto. Tem desde filtro de barro estilizado com a bandeira de Pernambuco até um banquete junino feito inteiramente de cerâmica.
“A minha renda hoje vem da arte“
Tudo pensado e produzido em família, hoje sob a liderança de André Fernando, de 29 anos. Um microempreendedor individual, mas que só descobriu isso há pouco tempo e por conta de uma necessidade. O pedido de um cliente fiel por uma nota fiscal fez com que ele quebrasse a cabeça para sair da informalidade e ser um dos mais de 15 milhões de MEIs com CNPJ ativo no Brasil.
Desde pequeno, André via o avô, seu João, modelar o barro. Não poderia ser diferente: seguiu os mesmos passos. Quando o trabalho de carteira assinada chegou ao fim, sabia exatamente onde poderia tirar o seu sustento: na arte.
“Um cliente que vinha aqui comprar várias peças passou a pedir para emitir a nota fiscal, para comprovar o valor total e ficar tudo certinho. A gente se organizou e criou o MEI. Tive que aprender do zero, buscar conhecimento com a ajuda de um contador, de alguns amigos que também são MEI para me explicar. A ideia é melhorar o atendimento ao cliente, para passar mais segurança, porque a gente faz venda online também, então fica tudo mais fácil. A minha renda hoje vem da arte”, declarou.
Além de ter saído da informalidade, André e a família investem cada vez mais nas vendas pela internet. Para a CBN Recife, ele contou que, recentemente, enviou uma encomenda para Salvador, na Bahia, a partir dessa estratégia. (Clique aqui e confira a página no Instagram)
No perfil no Instagram, ficam em destaque os produtos à disposição, as peças que já foram vendidas e stories publicados pelos clientes satisfeitos com as compras. Uma virada de chave de olho no futuro – que, por sinal, já chegou. Clique aqui e confira o instagram
Uma terra de empreendedores
Mesmo sem a instrução ideal, André teve a iniciativa de empreender. Palavra conhecida e praticada pelos artesãos de Tracunhaém há mais de 100 anos – ainda que ela, em si, não seja conhecida há tanto tempo assim. O que os antepassados fizeram, os filhos dos filhos darão continuidade, levando o legado de um povo a todos os cantos. Mas agora, com novas possibilidades que permitem ampliar, ainda mais, a presença do município na cultura e na economia de Pernambuco.
Da suavidade da modelagem até a quentura do forno, a Capital do Artesanato em Cerâmica se fortalece com as histórias de Val, Ivo, Rodrigo, André, João, Marias, Mazés, e de tantos outros artistas. É por eles que Tracunhaém, cidade de tantos títulos, também pode ser conhecida como a terra dos empreendedores da arte.
Ficha Técnica
Edição: Daniele Monteiro
Sonorização: Evandro Chaves
Produção e Reportagem: Lucas Arruda




















