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Empreendedorismo imigrante: rompendo fronteiras para fazer negócios

O Observatório das Migrações Internacionais (ACNUR) mostrou que entre 2015 e 2024, 454.165 imigrantes solicitaram asilo ao Brasil, dos quais 495 solicitaram revalidação de diplomas entre 2016 e 2022

Por: Redação CBN

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O sorriso do empreendedor Joice Sanchéz, venezuelano de 41 anos, revela a alegria de alguém que trabalha com o que ama: a odontologia. Após cinco anos tentando revalidar o diploma no Brasil e ter o seu próprio negócio, Joice conseguiu, por meio de uma sociedade, abrir um consultório odontológico no bairro do Ipsep, no Recife, e finalmente exercer a sua profissão em território brasileiro.

O dentista iniciou a carreira na Universidad Nacional Experimental de los Llanos Centrales Rómulo Gallegos, no estado de Guárico, na Venezuela, onde se formou em 2008, e exerceu a odontologia por mais de nove anos. Foi na “La Pequeña Venecia” que teve o seu primeiro contato com o empreendedorismo. “Eu vivia do meu particular, tudo o que tinha no consultório era da gente”, lembra.

Devido às instabilidades socioeconômicas ligadas ao regime político do país, migrou para o Brasil em 2017, deixando momentaneamente o seu sonho para trás. “Vendemos tudo, tudo, tudo. Era minha ferramenta de trabalho, então, não foi nada fácil me desfazer de tudo o que eu tinha”, conta.

Após cinco meses de sua partida, sua esposa, Deirys Daniela, e os seus dois filhos, Joice e Josué, também vieram ao Brasil, e foi o reencontro com a família que inspirou o seu recomeço.

Com um diploma e quase 10 anos de experiência profissional, Joice, agora no Brasil, precisou atuar em diversas áreas para garantir a subsistência da família. “Nenhum trabalho desonra: porteiro, auxiliar de cozinha, fiz tudo o que era necessário para colocar comida na mesa”, afirma. 

Foram grandes os obstáculos para voltar a exercer a sua profissão, e o preconceito foi o maior deles. “Eu vi muita discriminação”, lamenta Joice.

“Eu nunca baixei a cabeça”, diz Joice Sanchéz. Foto: Ana Beatriz Cavalcanti/CBN Recife

Estar em um novo país, com uma dinâmica sociocultural diferente, revela novas possibilidades, mas também novas formas de vulnerabilidade. “Eu nunca baixei a cabeça”, ressalta, com orgulho, o venezuelano.

E foi a sua persistência que o levou, quatro anos depois, à revalidação do diploma, processo feito por meio de um programa humanitário da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Segundo o Conselho Regional de Odontologia em Pernambuco (CRO-PE), qualquer estrangeiro pode exercer a profissão no estado, desde que possua diploma de Odontologia revalidado no Brasil e inscrição junto ao CRO-PE. Para isso, deve passar por um processo de revalidação, que pode incluir análises acadêmicas e avaliações. O prazo de todo o trâmite varia conforme a instituição que realiza a revalidação e a análise documental.

Para Joice, o prazo durou, ao todo, quatro anos. Dificuldades na obtenção da documentação necessária junto ao país de origem, a pandemia de covid-19, a xenofobia e ainda a necessidade de trabalhar para garantir a sobrevivência foram fatores que estenderam sua jornada, realidade comum de muitos imigrantes que tentam voltar a trabalhar e a empreender no Brasil.

Foto: Ana Beatriz Cavalcanti/CBN Recife

O Observatório das Migrações Internacionais (ACNUR), órgão humanitário da Organização das Nações Unidas (ONU), mostrou que entre 2015 e 2024, 454.165 imigrantes solicitaram asilo ao Brasil, dos quais 495 solicitaram revalidação de diplomas entre 2016 e 2022, revelando, assim, a necessidade de avaliar o novo quadro socioeconômico brasileiro, impactado pela inserção de novas pessoas.

A presença dos imigrantes na economia brasileira

Um estudo realizado pelo Sebrae, em 2023, registrou 72 mil Microempreendedores Individuais (MEI) ativos de outras nacionalidades no Brasil. O número corresponde a 5,7% do total de imigrantes naquele ano.

O desejo da população imigrante de fazer negócios e contribuir para a economia nacional urge. Mas o grupo que é ativo economicamente necessita de oportunidades para desbravar novas formas de empreender.

Para o economista e professor da Universidade Estadual de Pernambuco (UPE), Sandro Prado, a inclusão dos imigrantes nas atividades econômicas é necessária. “Existe muito espaço não só para o empreendedorismo imigrante, mas também para trabalhadores imigrantes que desejam vir. Hoje, estamos com um nível de desemprego baixo no Brasil. Nós temos muita oportunidade de trabalho, de emprego, e isso só faz com que a economia do Brasil gire cada vez mais”, pontua.

Segundo o especialista, tanto o mercado empreendedor quanto o mercado de trabalho estão abertos para recepcionar quem precisa sair do seu país para, entre outras questões, sobreviver. “Nós temos as nossas dificuldades, claro, mas precisamos de bons profissionais e de bons empreendedores que possam atuar aqui também”, acrescenta”.

Sandro Prado, professor e economista. Foto: Divulgação

Questionado sobre a percepção social contrária à inclusão econômica dessa população, o economista afirma: “Essas pessoas são muito bem-vindas para incrementar a nossa economia”, completa. 

A inserção social do imigrante no Brasil

Cada sociedade é única e apresenta seus desafios e oportunidades. As diferenças culturais, somadas ao grande fluxo migratório em algumas regiões do país, ocasionam processos de marginalização. “Nunca existiu, historicamente, no Brasil, uma resistência ao processo de imigração. O que há é uma quantidade muito expressiva, principalmente na Região Norte, de pessoas que se deslocam das fronteiras da Venezuela para o Brasil, por exemplo”, explica o historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Thiago Modenesi.

A decisão de imigrar está envolta em uma carga simbólica que interfere na inserção do imigrante. Apesar de os países da América Latina compartilharem traços culturais, elementos como língua e costumes são diferentes e impactam diretamente na sua integração. “O Brasil tem esse componente da língua, que, sim, é uma barreira e que cria uma distância do ponto de vista da cultura e dos costumes”, destaca o professor.

A entrada de estrangeiros com necessidades humanitárias revela problemáticas sociais já existentes e persistentes de um lugar. Vista a necessidade de ampliar a assistência social em áreas de grande fluxo migratório, a culpabilização desses povos pelos problemas sociais do país é intensificada. “A necessidade de reforçar o campo vacinal, de ter emprego e moradia acaba gerando um processo de marginalização”, pontua o historiador.

“Alguns venezuelanos são contratados para empregos que os brasileiros não gostariam de ter”, afirma Thiago Modenesi. Foto: Ana Beatriz Cavalcanti/CBN Recife

A luta pela diversidade étnica movimenta negócios 

As situações enfrentadas pelo empreendedor venezuelano Joice Sanchéz refletem a cruel realidade do subemprego, da dor de não poder exercer o que tanto ama, trabalhando em funções que nunca realizou antes em seu país, em busca da subsistência. Diante da necessidade de sobreviver, a opção é aceitar “as oportunidades”, ainda que estejam distantes de uma antiga ocupação ou da qualificação conquistada até ali. “Os venezuelanos acabam sendo contratados para empregos que os brasileiros não gostariam de ter”, dispara  o historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Thiago Modenesi.

Com quase uma década do aumento do fluxo migratório de latino-americanos no país, o Estado vem desenvolvendo medidas que buscam dignificar a entrada e a permanência dessa população em todo o país. 

O fortalecimento da perspectiva antixenofóbica e inclusiva reforça a percepção da nação brasileira acerca da necessidade de uma sociedade multicultural. “Isso faz parte da visão cosmopolita latino-americana”, classifica Modenesi.

O empreendedorismo imigrante é de extrema importância para o desenvolvimento econômico brasileiro. Todas as iniciativas de empreender feitas por imigrantes, a exemplo da luta para implantar o consultório odontológico e exercer a profissão de dentista, de Joice Sanchéz, são um passo para a construção de uma economia, mas, acima de tudo, de uma sociedade multicultural e inclusiva, que ultrapassa barreiras territoriais e é capaz de demolir muros edificados pelo preconceito. No Brasil dos brasileiros, o empreendedor não tem raça, gênero ou etnia definidos: todos podem empreender.

Produção: Ana Beatriz Cavalcanti e Daniele Monteiro
Edição: Daniele Monteiro
Reportagem: Ana Beatriz Cavalcanti

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Acervo CBN

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