O corre permeia as favelas, ajuda a movimentar a economia local, impulsiona trajetórias e cria oportunidades. Mas, ainda assim, fazer um negócio crescer continua sendo um caminho marcado por incertezas. Para muitos empreendedores, a falta de estabilidade financeira é um dos aspectos mais limitantes. De acordo com a pesquisa ‘Sonhos de Favela’, realizada pelo Instituto Data Favela, 6 em cada 10 entrevistados contam não ter renda mensal fixa.
Na comunidade de Santo Aleixo, em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, a trancista Ester Soares vivencia esses desafios na prática. “Ser microempreendedor individual independente é um babado, né? Porque é um fluxo, você nunca tem a segurança real do retorno. Você sempre dá o tiro no escuro esperando que aquilo funcione, que as pessoas comprem sua ideia”.

A empreendedora, que também é universitária e mantém outras ocupações para complementar a renda, destaca outro grande desafio: o acúmulo de funções. “Você que divulga, você que faz o card de divulgação, você que faz a tabela de preço, você que organiza material, você que limpa espaço, você que capta cliente, você que faz tudo. E para ter o da gente e se estabilizar, precisamos, infelizmente, fazer o trabalho de cinco”, relata.
No entanto, para Ester, os desafios do empreendedorismo periférico não terminam na gestão do próprio negócio. Empreender dentro da comunidade onde vive também exige compreender as dinâmicas do território. “Um lance primordial é entender o impacto que você está fazendo na sua comunidade com o seu trabalho. Empreender no lugar onde a gente mora é sempre bem complexo. É dialogar com os valores que a sua comunidade tem, com acessibilidade para pagar pelo seu serviço também. Existem esses desafios, que levam tempo para você conseguir ultrapassar, mas eu vejo mais benefícios do que malefícios em você empreender na sua comunidade”.
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Ainda que os obstáculos façam parte da rotina, Ester acredita que empreender na periferia também é uma maneira de construir possibilidades de futuro, mesmo quando os resultados custam a aparecer. “É um trabalho de formiguinha que, por exemplo, a gente que faz trança dentro da comunidade tá contribuindo para um formigueiro. Cada um tá botando lá um negocinho e, em algum momento vai chegar. Pode demorar, porque a gente sabe que é um sistema, que é uma estrutura que precisa ser mexida, que envolve política e todas essas questões burocráticas. Mas assim, eu estou fazendo o meu e estou contribuindo para o formigueiro de alguma forma”.
Reconhecer os limites da realidade não significa abandonar a possibilidade de transformação. Nas favelas, onde sonhar, muitas vezes, precisa disputar espaço com tantas outras preocupações, empreender também pode ser uma maneira de insistir no futuro. Um futuro construído entre improvisos, sem dúvidas, mas principalmente entre a persistência e o trabalho duro daqueles que se recusam a deixar os próprios sonhos pelo caminho.





